ESTÓRIAS E MITOLOGIA DO OPARAH
   27 de novembro de 2023   │     8:06  │  0

APRESENTAÇÃO

As aventuras do menino Jesiel, apelidado por seu avô de Grapiúna, por ter nascido na região do cacau na Bahia, acontecem nas margens do riacho Marituba, entre Penedo e Piaçabuçu. Encantado pelas águas negras do rio, pelas aningas e baronesas, pelo cantos dos pássaros, o brancor das garças e o alvoroço das jaçanãs e marrecas que o Grapiúna encontra um ser mitológico que habita nas profundezas do Rio Mar, como era chamado o Rio São Francisco pelos indígenas.
O encontro com a Filha do Rio e a Mãe d’Água com o mergulho até o Reino do Rio Mar é algo inesquecível para ele. É uma experiência de estar num mundo onde o tempo não existe. É um segredo que só reparte com o avô que sempre o encorajou nas suas aventuras. E, mesmo assim o velho não é capaz de relatar a mesma experiência que teve ao neto. E ele só descobre isso depois de adulto, lembrando como aquele assunto teria iluminado o seu semblante, a ponto dele perceber que não deveria insistir no assunto.
O Grapiúna e a Mãe d’Água é apenas uma de suas aventuras pela mitologia Sanfranciscana.

O GRAPIUNA E A MÃE D’água

Fazia pouco tempo que a família de Jesiel tinha chegado a Vila do Retiro, povoado perdido entre a cidade de Penedo e Piaçabuçu. Veio do Estado da Bahia, onde o pai tem uma fazenda de cacau. Estava de férias da escola e sua mãe o trouxe para conhecer os avós.
O apelido Grapiúna recebeu no primeiro dia, de seu avô. – Sabe como são chamados os habitantes da região do cacau? E a partir daquele momento virou o Grapiúna. Um garoto de 10 anos, alegre e corajoso.
Não deu uma semana e o Grapiúna já conhecia tudo por ali. Passava o dia inteiro na beira do rio, às vezes pescando, às vezes atirando pedrinhas na água para espantar os patos que nadavam. Vez por outra via descer rio abaixo os buquês de baronesas, umas flores roxas no meio de uma ramagem de folhas muito verde como uma pequena ilha flutuante.
No mato, não faltavam passarinhos, nem cajus maduros e Cambuís, uma frutinha vermelha, muito doce, que colhia pela estrada. Enquanto caminhava o Grapiúna esquecia do tempo e da distância de casa. Não tinha medo de coisa alguma. Naquele dia tinha alcançado a Várzea Grande, um espaço alagado, repleto de aningas e juncos, onde as garças se aninhavam com sua brancura em meio aos jaçanãs estridentes e as marrecas afoitas, que ali se alimentavam. Ficou extasiado com tanta beleza! Mas, foi nesse momento que avistou uma menina entre as aningas com o corpo coberto por folhas de baronesas.
– O que você está fazendo?
– Porque não sai do meio dessas aningas?
–Eu estou presa. Respondeu a menina.
E o Grapiúna pulou na água para ajudá-la. Foi quando percebeu a cauda de um peixe presa na rede de pesca. Não era, propriamente, uma criança que estava ali, era uma pequenina sereia. – Você é uma sereia? Perguntou sem assombro.
–Não. Respondeu e completou: – Sou uma filha do rio. Venho do Reino do Rio Mar. Minha mãe não sabe que estou aqui. Preciso voltar.
–Como eu faço para vê-la novamente?
– Não sei nem como me viu. Mas, na próxima lua cheia eu venho novamente. Como é seu nome? Meu nome é Grapiúna. – E o seu? Mas não deu mais tempo, a criatura submergiu e ele só avistou o colorido de sua cauda balançando rapidamente e sumiu.
Passava das três da tarde, quando entrou devagarzinho em casa pensando não ser notado pela avó.
–Onde você estava menino? Isso é hora. Não almoçou. Eu devia deixá-lo com fome para você aprender a chegar na hora do almoço.
É quando seu avô intervém. –Deixe o menino Otília, não vê que ele está se divertindo nesse nosso mundo. Ele está fazendo sua exploração.
– Exploração! Ele está é se metendo em alguma encrenca por aí.
–Tô não vó.
Não ousou a contar a história a ninguém. Dormiu e acordou pensando que tudo não havia passado de um sonho. E foi no meio do café da manhã que teve a coragem de perguntar ao avô, bem perto de seu ouvido.
-Vô, nesse rio tem sereia?
– Sereia? Não, tem mãe d’água.
É quando sua avó intervém com o marido. –Você está colocando coisas na cabeça desse menino.
– Deixe o menino viver Otília.
E era apenas o que o pequeno Grapiúna queria, viver naquele lugar lindo onde o sítio de seu avô se misturava a paisagem do rio. Tinha tempo de sobra para brincar e a noite para olhar as estrelas. Mas, durante algum tempo ficou aguardando a lua grande que nasce atrás das árvores e ilumina a noite como se fosse o dia. Quando esta lua chegou, sabia que no dia seguinte poderia encontrar sua amiga.
Nunca havia acordando tão cedo, nem havia esperado o dia amanhecer. Mas logo que ouviu dona Otília mexer nas panelas levantou-se e foi para cozinha.
-Bom dia! Levantou cedo. O que é que está aprontando?
– Nada…
-Não acredito que não haja um motivo para acordar tão cedo.
-Tem não, vó. Eu amanheci com fome… Foi a melhor desculpa que encontrou.
-Então dormiu amarrado.
-Dormi não vó. A minha mãe nunca me amarra…
– Não é isso que eu quero dizer. É que os bezerros costumam dormir amarrados para não beberem todo o leite das vacas. Assim eles acordam com fome. É só uma expressão de nossa terra… Mas, não se preocupe, aguarde só um pouquinho que você vai comer.
Como a fome era de mentira só comeu um pedaço de bolo com um gole de leite e ganhou o mundo. Foi para a Várzea Grande, no lugar onde encontrou a sereia menina. Primeiro, ficou olhando lá de cima da ribanceira, examinando cada parte do mato que cobria o rio e, principalmente, as aningas. Depois, resolveu pular dentro do rio e olhar mais de perto. Foi quando voltou a encontrar a criatura que o observava silenciosamente.
-Por que você não falou nada? Eu estou a um tempão lhe procurando. E realmente a menina sereia continuou calada, com um olhar meio aflito para ele. Foi quando uma mulher emergiu do rio. Era a mãe d’água que seu avô havia falado. E não demorou muito e sentiu que afundou com ela. Não viu mais nada. Ficou adormecido. Acordou, depois de muito tempo e viu a menina sereia ao seu lado. Olhou o lugar onde estava e nada pareceu igual ao seu mundo. Não sabia se era noite ou dia porque o céu era translúcido como o cristal. E apenas uma luz muito leve definia o horizonte.
-Eu morri? Perguntou.
-Não, você foi encantado por minha mãe e está no Reino do Rio Mar.
-Mas, como eu vou voltar para a minha casa? Minha mãe deve estar preocupada.
– Se você ficar aqui conosco pode se tornar um de nós. Disse a menina.
-Posso?
-Pode sim, mas não vai ficar. Responde a mãe da menina que aparece.
É quando o Grapiúna percebe que asque as duas têm pernas, iguais a ele.
-Vocês não são sereias?
– Somos as filhas do Rio. Você é muito jovem para compreender essas coisas. Por isso vou mandá-lo de volta para sua família, antes que sua mãe fique aflita lhe procurando.
– Quanto tempo eu estou aqui?
– O tempo não existe no Reino do Rio Mar. Mas no seu mundo você ainda está na mesma lua. Não vou tirar a suas lembranças. Mas, você nunca mais nos encontrará, mesmo que estejamos ao seu lado. Disse isso e num instante o Grapiúna está sentado na ribanceira, olhando para o meio rio como se nunca tivesse saído Dalí.
Naquela manhã voltou mais cedo para casa com a cabeça fervilhando com as imagens do Reino do Rio Mar. Finalmente, resolveu conversar com avô.
-Vô, o senhor já ouviu falar do Reino do Rio Mar?
Os olhos de seu avô brilharam e ele pareceu pensativo por alguns instantes, depois, respondeu: – Não, eu nunca ouvi falar desse Reino. E nada mais acrescentou. Depois, muitos anos depois, quando o Grapiúna ficou adulto veio compreender que o seu velho avô também teria conhecido aquele mundo onde o tempo não existia. E igualmente a ele não podia contar a ninguém.

About Benedito Ramos Amorim

Pesquisador, Crítico de Arte e Coordenador de Ação Cultural e Social da Associação Comercial de Maceió, tem livros publicados a partir de 1974: Mona Lisa Um Autorretrato de Leonardo da Vinci - Pesquisa, em 1979 Lamento Derradeiro que recebeu o Prêmio Moinho Nordeste da Academia Alagoana de Letras – Contos, 2003 A Construção do Palácio do Comercio – Pesquisa, Edufal, 2005, Um Amor Além do Tempo – Romance, HD Livros, 2006, Doce de Mamão Macho – Novela, Editora Catavento. Articulista em diversos jornais da capital alagoana desde 1976, no extinto Jornal de Alagoas desde 1976, a partir de 2002 no O Jornal e Jornal Gazeta de Alagoas. Prêmio Graciliano Ramos da Academia Alagoana de Letras com o romance inédito Pensamentos Mágicos em 2006, ano em que assumiu a cadeira número 9 da Academia Alagoana de Letras. Editor por 5 anos do jornal O Palácio publicado pela Coordenadoria de Ação Cultural e Social da Associação Comercial de Maceió. 2019 Prêmio Editora Gracialiano Ramos com edição dos livros, Nadi e 2ª Edição do livro Doce de Mamão Macho.

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