Author Archives: Benedito Ramos Amorim

About Benedito Ramos Amorim

Pesquisador, Crítico de Arte e Coordenador de Ação Cultural e Social da Associação Comercial de Maceió, tem livros publicados a partir de 1974: Mona Lisa Um Autorretrato de Leonardo da Vinci - Pesquisa, em 1979 Lamento Derradeiro que recebeu o Prêmio Moinho Nordeste da Academia Alagoana de Letras – Contos, 2003 A Construção do Palácio do Comercio – Pesquisa, Edufal, 2005, Um Amor Além do Tempo – Romance, HD Livros, 2006, Doce de Mamão Macho – Novela, Editora Catavento. Articulista em diversos jornais da capital alagoana desde 1976, no extinto Jornal de Alagoas desde 1976, a partir de 2002 no O Jornal e Jornal Gazeta de Alagoas. Prêmio Graciliano Ramos da Academia Alagoana de Letras com o romance inédito Pensamentos Mágicos em 2006, ano em que assumiu a cadeira número 9 da Academia Alagoana de Letras. Editor por 5 anos do jornal O Palácio publicado pela Coordenadoria de Ação Cultural e Social da Associação Comercial de Maceió. 2019 Prêmio Editora Gracialiano Ramos com edição dos livros, Nadi e 2ª Edição do livro Doce de Mamão Macho.

RELIQUIAS DA CULTURA POPULAR
   23 de fevereiro de 2024   │     7:30  │  0

A cultura popular, sobretudo a nordestina, enfeita-se de elementos semânticos que nos encanta e nos surpreende. São simples palavras ou mesmo sentenças cuja revelação do seu significado vem se perdendo no decorrer dos anos até por falta de uso entre moradores de cidades interioranas, onde a geração mais antiga foi substituída por uma nova com uma linguagem mais atualizada. Perde-se por tanto, a essência do falar brasileiro e da origem de muitas expressões utilizadas no mundo atual. Hoje o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN vem incentivando as pesquisas sobre a cultura imaterial, que inclui a língua popular brasileira de diversas regiões, assim como as línguas indígenas remanescentes. Desta forma este artigo tem por iniciativa o registro de algumas expressões muito pouco usadas ou até desaparecidas.

Perguntamos: quem alguma vez, já foi chamado de macio?

O que significa então macio, e em que circunstâncias a palavra é utilizada?

Macio É um sujeito lerdo, vagaroso e lento em tudo o que faz. A expressão é utilizada da seguinte forma: Fulano é macio demais! Significa que ele é lento demais. Continue reading

O GRAPIÚNA E O CAIPORA
   2 de janeiro de 2024   │     3:41  │  0

O menino Grapiúna tinha mania de se embrenhar no mato, passava o dia inteiro observando os pássaros, descobrindo novos ninhos, acompanhando a vida de cada pequenino morador daquele mundo que era só seu. Quando voltava a tardinha, trazia o bornal cheio de maçarandubas, cambuís e ingá. Desde que chegara à vila do Retiro nunca parou um instante para brincar na porta de casa. Todas as crianças de sua idade gostavam de jogar pião, chimbra, brincar de carrinho, mas o Grapiúna só queria saber mesmo era de explorar tudo o que era desconhecido.

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ESTÓRIAS E MITOLOGIA DO OPARAH
   27 de novembro de 2023   │     8:06  │  0

APRESENTAÇÃO

As aventuras do menino Jesiel, apelidado por seu avô de Grapiúna, por ter nascido na região do cacau na Bahia, acontecem nas margens do riacho Marituba, entre Penedo e Piaçabuçu. Encantado pelas águas negras do rio, pelas aningas e baronesas, pelo cantos dos pássaros, o brancor das garças e o alvoroço das jaçanãs e marrecas que o Grapiúna encontra um ser mitológico que habita nas profundezas do Rio Mar, como era chamado o Rio São Francisco pelos indígenas.
O encontro com a Filha do Rio e a Mãe d’Água com o mergulho até o Reino do Rio Mar é algo inesquecível para ele. É uma experiência de estar num mundo onde o tempo não existe. É um segredo que só reparte com o avô que sempre o encorajou nas suas aventuras. E, mesmo assim o velho não é capaz de relatar a mesma experiência que teve ao neto. E ele só descobre isso depois de adulto, lembrando como aquele assunto teria iluminado o seu semblante, a ponto dele perceber que não deveria insistir no assunto.
O Grapiúna e a Mãe d’Água é apenas uma de suas aventuras pela mitologia Sanfranciscana.

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ACADEMIA ALAGOANA DE LETRAS – A Aclamação pela continuidade de uma gestão renovadora
   8 de setembro de 2023   │     10:43  │  0

A reunião de 6 setembro último, ensejou surpresas agradáveis: primeiro, na aprovação por Aclamação da gestão do presidente Rostand Lanverly. Seguindo, pela surpresa de um momento reservado a declamação de poemas pelos próprios autores que se transforma numa bela tertúlia. Era para ser um momento intimista de uma reunião de pauta única com a aprovação de apenas uma chapa para a Diretoria da entidade. Porém, já havia uma expectativa em torno de declamações de poesias pelos proprios autores. Alguns vídeos foram gravados para que se tenha uma ideia do clima da reunião e qualidade do conteúdo das apresentações.

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NORDESTE – A FÉ E A HERESIA.
   23 de agosto de 2023   │     3:29  │  1

Tenho uma lembrança, da minha primeira infância, de ver o Sr. (Seu) Canhoba, porteiro da Fábrica Marituba, onde eu morava, exibir um chifre de boi, cortado ao meio, fechado com uma tampa, do mesmo material e quando abria, havia uma brasa acesa onde acendia o seu pagoga (cigarro de palha), fedorento. Nunca mais vi coisa igual.

Às vezes até pedia para ele abrir e me mostrar aquela maravilha. Parecia Mágica! Nunca podia imaginar, e ainda me pergunto hoje, como uma brasa podia continuar viva dentro de um recipiente fechado. E hoje aos 70 anos, mesmo sem ter dúvida desse episódio, não posso ter o testemunho de ninguém, haja vista quantas vezes perguntei  e sem ter confirmação da existência de tal relíquia.  Foi quando lembrei de Carlos Mero, penedense apaixonado pela região, pesquisador por herança paterna, um erudito de coração aberto para a cidade sanfranciscana de Penedo.  Porém, ele também não lembrava. E, sequer ouvira menção alguma, no uso desse objeto. A essa altura, já havia feito inúmeras consultas ao Google sem uma resposta plausível. Então lembrei de mencionar a palavra “Isqueiro de chifre” e apareceu um vídeo do YouTube com um artefato de chifre com a mesma descrição. Então o reconheci. O formato era idêntico. A princípio, vi que o tal objeto era conhecido no Sul do Brasil com o nome de “Avio”. Encorajado por este primeiro achado busquei novamente no Google a palavra AVIO e então encontrei o mesmo objeto com o nome de “Binga”. Estava explicado porque minha mãe usava a expressão: “Toca fogo no Binga”. Então observei que o meu olhar de criança havia me enganado, apenas em uma coisa: a brasa não ficava acesa dentro do chifre, o seu interior servia para fazer o fogo e permanecer com ele aceso para acender o pagoga de seu Canhoba ou mesmo uma fogueira e até o fogão de lenha, em casa. A pequena chama era produzida pelo atrito de duas pedras e uns molambos esfiapados. Era assim que o fogo chegava até o binga. Para minha mãe, aquela expressão, bem podia dizer: “ – Vamos acender o fogo para preparar o jantar”. E, “tocar fogo no binga” indicando uma certa pressa ao cair da noite, desvencilhando-se da conversa com as vizinhas para ir cuidar do jantar do marido e dos filhos.

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NORDESTE – CULTURA, CRENÇA, FÉ E FANATISMO
   28 de julho de 2023   │     4:10  │  1

Desse Brasil inteiro o Nordeste parece ser um mundo a parte, separado do restante do Brasil por uma cultura ancestral e intimista que só esse povo tão amiudado por outros Brasis mais ricos sabe guardar na memoria. Costumo dizer que o nordestino tem uma intimidade maior que os demais, com os Santos da religião católica. Crentes fervorosos que são, trazem uma fé exagerada, tratando seus compromissos com seus padroeiros com a mais pura fidelidade. Por nada descumprem as promessas de subir ladeiras e penhas de chão, pedras ou escadarias para cumprir tais votos pelas graças recebidas.

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OS ÓRFÃOS DE ROMA
   17 de julho de 2023   │     1:37  │  0

AS RAZÕES DA QUEDA DE ROMA

Se há uma lacuna na história, algo que não ficou bem contado e que até hoje ninguém escreveu especificamente, é sobre o período de transição do mundo antigo ao medieval. E não é, simplesmente, uma questão de se arrematar informações sobre o período de decadência do Império Romano, que coincide com o início da Alta Idade Média. É muito mais que isto. Esta resposta estaria guardada na consciência do homem desse período, na sua visão e compreensão do que estava acontecendo com a poderosa Roma que ele conhecia.

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A Construção da Imortalidade
   11 de março de 2023   │     16:15  │  7

É possível que o medo de ser esquecido é bem maior que o medo de morrer. O primeiro é, meramente espiritual, o ser humano transcende a linha do tempo entre o nascimento e a morte. O segundo é o medo de perder o corpo físico diante do final iminente de sua caminhada no planeta Terra. Por outro lado o esquecimento é uma espécie de degredo do espírito que qualquer um pode experimentar, mesmo em vida. O artista das letras, o escritor ou criador, carrega o fardo da incerteza de sua imortalidade durante a vida. Construir essa imortalidade é a sua missão. Uma missão solitária e muitas vezes narcisista, ciosa pelo que faz. É nesse limiar entre o sagrado e o profano, onde reside a imortalidade. Essa mesma imortalidade alcançada por Augusto dos Anjos, Cora Coralina ou mesmo Antônio Francisco Lisboa – o Aleijadinho, um quasimodo na sua deformação causada por uma doença até hoje um mistério. Imagine que Augusto dos Anjos escreveu um único livro intitulado: “Eu”. Com apenas essa obra o autor se imortalizou. Quem imaginaria que aquela doceira de Goiás octogenária fosse a poetisa Cora Coralina.
A centenária Academia Alagoana de Letras reúne entre seus consócios autores dedicadíssimos à poesia e à prosa poética, romance, novela, conto, critica literária, ensaio e outros gêneros. Não obstante, os periódicos impressos cerceiam os espaços disponíveis no jornal impresso criando limites à criatividade. Eis a importância dos blogues, quando as tecnologias apocalípticas do terceiro milênio nos privam das edições impressas adotadas pela civilização ocidental desde o início da Idade Moderna, marcada pela queda de Constantinopla em 1453, para ser mais preciso, com a impressão da Bíblia de Gutemberg. O jornal impresso perdeu velocidade e custo financeiro para o jornal digital.
É por estas e outras, que nosso atual presidente Rostand Lnverly não cansa de repetir que a “Academia Alagoana de Letras… na sentença do imortal Presidente Ib Gatto Falcão: não é seu edifício sede e nem os livros, a Academia somos todos nós”. Não pela vaidade pessoal de compor a assembléia de sócios vitalícios, como para dividir o seu brilho pessoal com aquela instituição. Dessa forma, cada um de nós tem a missão de se fazer lembrar.
Eis o motivo para que esse blogue “Letras Alagoanas” seja, não apenas, um registro da produção literária chancelada pela Academia Alagoana de Letras, como também seja um observatório do que se produz extramuros por nossos convidados.